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terça-feira, 12 de junho de 2007

Bem vindos ao mundo da mediocridade

Uma vez, ao comentar um jogo do Flamengo, Nelson Rodrigues disse com grande propriedade que a multidão não tem cara. Foi a maneira elegante e acessível que o genial observador humano encontrou para dizer na sua coluna da seção de esportes do Ultima Hora que no meio da massa ignara as individualidades se anulam e todos os integrantes de uma turba fazem parte do corpo único de um ser com força colossal cuja inteligência e emoções são iguais a de uma criança de dois anos de idade. Somos forçados a concordar com o auto-proclamado Reacionário, pois dessa entidade poderosa e descerebrada chamada multidão não se pode mesmo cobrar coerência, paciência ou bons modos.

Nem por isso alguém em seu juízo perfeito pode sequer sonhar em exercer o duvidoso direito de falar mal, por mínima que seja a crítica, da Torcida do Flamengo. Desde1895 ela tem sido a pedra angular, o alicerce e o esteio do clube e o maior de todos entre os grandes jogadores do Manto Sagrado. As descabidas críticas que ultimamente ela tem sofrido partem infalivelmente de quem não vai ao Maracanã e não faz sequer idéia dos grandes sacrifícios logísticos e humanos que se exigem de quem ainda insiste em manter o antiquado e cada vez menos estimulado hábito de acompanhar o Flamengo nos estádios. Ainda que as praças esportivas, brasileiras no geral e cariocas no particular, sejam em sua maioria pocilgas insalubres construídas ao redor de um campo de futebol não se pode estabelecer uma reação de causa e efeito entre o desconforto oferecido ao público e as exageradas reclamações de alguns flamenguistas em relação ao time.

Dadas as suas características psicológicas e comportamentais e considerando o retrospecto das campanhas do time nos últimos cento e poucos anos é difícil imaginar um grupo de pessoas mais despreparado para acompanhar trinta e oito frias e exaustivas rodadas do Brasileiro do que a Torcida do Flamengo. Concordo que se referir a maior torcida do sistema solar como um mero grupo de pessoas é um minimalismo que beira a imprecisão e infelizmente não há citações de Nelson Rodrigues no estoque para revestir com credibilidade alheia o que afirmo agora, mas é inegável que a Torcida do Flamengo não sabe como é que se torce em um longo campeonato por pontos corridos como esse chatíssimo Brasileiro.

Essa ignorância não é vergonha nem demérito pra ninguém, ao contrário, é motivo de orgulho e regozijo. É fruto de décadas e mais décadas marcadas pelas inúmeras vitórias heróicas, conquistas dramáticas, viradas épicas e consagrações dionisíacas que o Flamengo protagonizou e proporcionou. Foi sob essa chama intensa, inextinguível e de violentíssima combustão que se forjou a têmpera do torcedor rubro-negro. É costume já arraigado na crônica esportiva dizer que o Flamengo é um time de chegada. Um erro primário de perspectiva, pois de chegada mesmo sempre foi a sua torcida.

O que não é de chegada e nunca vai ser é essa fórmula de Campeonato Brasileiro. Disputado num sistema que produz índices escandinavos de emoção o Campeonato Brasileiro deve ser muito bom para os times medíocres e para os insuportavelmente regulares. Não cabe aqui a longa e interminável polêmica sobre os méritos da regularidade, se ela é boa ou não. É fato indiscutível que regular ou medíocre o Flamengo não é, nunca foi e, arrisco vaticinar, nunca será. Com o Flamengo sempre foi tudo ou nada. Sua incomparável, afirmativa e indestrutível torcida nasceu, cresceu e amadureceu assim: preparada para tudo e sem paciência para nada.

Nos últimos cinco Campeonatos Brasileiros (exceção às edições 2003 e 2006) o Flamengo não foi capaz de disputar as primeiras colocações e rondou perigosamente o submundo da zona de rebaixamento com algumas das mais ridículas e tecnicamente desqualificadas equipe da nossa História. Podem-se cobrir essas mal sucedidas equipes que envergaram o Manto dos mais ofensivos adjetivos e, como já foi feito, até mesmo questionar os índices de testosterona de vários dos seus integrantes, mas não se pode dizer que essas mulambadas não proporcionaram grandes, enormes emoções à Torcida do Flamengo.

Na luta para não deixar de ser o único grande clube do Brasil que nunca desonrou sua camisa e sua História pisando nos amaldiçoados campinhos em que se disputam as segundas divisões o Flamengo protagonizou verdadeiras odisseias que sempre tiveram um desfecho feliz. Quem ainda se recorda da miraculosa goleada de 6 x 2 sobre o Cruzeiro na última rodada do Brasileiro de 2005 sabe exatamente de que tipo de emoção tratamos aqui. E é desse tipo de emoção embriagante que o torcedor do Flamengo se alimenta. Por isso nesse Brasileiro 2007, quando finalmente temos um time medíocre (a raiz do temo é latina, significa mediano, ordinário, insignificante) talhado para ficar ali naquela parte da tabela que só garante uma vaga na Sul Americana, rubro-negros mais sensíveis às síndromes de abstinência estão tirando as calças pela cabeça.

Na partida de domingo contra os tristes salteadores setentrionais o Flamengo só saiu de campo sem os três pontos graças a uma rara falha de Bruno The Wall, mas expressiva parcela da torcida fica arrumando tudo que é motivo pra falar mal do Ney Franco. Todo mundo sabe que o elenco do Flamengo é tipo filme B de Hollywood e que arrancar empate em jogo fora não é tarefa fácil e ainda assim há quem diga que o problema é o treinador. Isso é ou não é coisa de quem tem pouca prática?

É urgente que a torcida aprenda de uma vez por todas que se deve tomar muito cuidado com os desejos, porque muitas vezes eles se tornam realidade. A Torcida do Flamengo não aguentava mais ver o time pagar mico no Brasileiro e vivia pedindo regularidade, uma comissão técnica forte e planejamento a médio e longo prazo. Tá aí o que vocês queriam.
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